quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

O pátio da escola

A passada semana, foi alvo de uma remodelação muito estranha.


Todo o espaço da escola ainda em terra, foi lavrado com motocultivadores, estrumado e adubado. A relva foi semeada. Lamenta-se o facto de tamanha proeza acontecer em plenos dias de semana com as aulas a decorrer.


O cheiro nestes dias tornou-se insuportável o que fez com que alguns alunos viessem de cara tapada com lenços para a escola.

Durante as aulas tornou-se mais difícil conseguir a concentração dos alunos que estavam constantemente a queixar-se do mau cheiro vindo do espaço exterior da escola.


Ah, não esquecendo a quantidade de utensílios utilizados ( enxadas, pás, etc) para esta acção que foi deixada à mercê dos alunos, o que fez com que alguns deles, na hora de almoço, fossem espalhar estrume ficando com um cheiro horrível que partilharam em sala de aula com os restantes colegas.

Mais caricato ainda, foi quando apareceram dois técnicos da Câmara Municipal, a fotografar os resultados finais das obras, e quando os questionei sobre o que estavam a fazer, eles mostraram-se muito orgulhosos da rica porcaria que tinham acabado de mandar fazer, dizendo que estavam a tirar fotos para o seu portefólio profissional.
Muito bem sim senhor, e assim vai o estado da nossa nação...

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

No 2.º ano

Meados de Setembro, ainda por colocar. Ansiedade diária de ver na Internet quando sairá a próxima fornada de vagas para ser colocado. A preocupação de todos os docentes: quando, onde, como será, terei de sair de casa e deixar tudo ou poderei ir todos os dias a partir de minha casa na margem sul do Tejo, com vista para o Forum de Almada?!
Cansado das apresentações quinzenais no centro de emprego, resolvi procurar trabalho noutra área. Foi difícil, mas até Fevereiro, trabalhei numa linha de montagem, numa fábrica em Corroios e ainda atravessava a ponte para trabalhar num ATL em Odivelas. Pelo menos trabalhava e sentia-me útil, em vez de estar em casa a receber o subsídio de desemprego.
Em Fevereiro, fui colocado numa escola que considerei boa, assim como os alunos que tinha.  O pior, veio em Março, quando a professora que eu fui substituir se apresentou ao serviço após um mês de baixa médica.
Foi nesta altura que tive de voltar a procurar emprego. Passados 15 dias aí vou eu, novamente para os arredores de Lisboa.
Sem carro, apresento-me no Campo Grande para apanhar o autocarro, já com uma hora de comboio e metro.
- Bom dia, este autocarro passa na escola tal..tal?
E o motorista, com ar de preocupado, diz:
- Passa sim, porquê? Não me diga que é professor e vai lá dar aulas?
- Por acaso sou. Fui lá colocado e como não sei onde fica vou de autocarro, se não se importasse dizia-me qual a paragem em que devo sair.
- É assim, aquela escola é complicada, sente-se aqui no banco da frente e depois não sai em nenhuma paragem de autocarro. Vai sair num local que eu lhe indicarei.
Eu fiquei um pouco apreensivo com aquela apresentação da escola onde eu acabava de ser colocado até final do ano lectivo.
Após uma viagem de mais de uma hora chegámos ao bairro onde a escola estava inserida. Já quase todos os passageiros tinham saído, quando o motorista me chamou e me disse:
- É assim, o autocarro não passa em frente à escola, mas eu vou deixá-lo ali na rua mais próxima para que possa chegar lá rápido.
Parou numa zona erma.
- Onde está a escola?
- Está a ver ali no cimo daquele monte?
- Sim.
- O senhor sai aqui, sobe por este carreiro, mas vai sempre a correr, se alguém o chamar ou se meter consigo, nunca pare, só pára na portaria da escola. Não tenha medo, mas aqui quando vêm alguém desconhecido, tá a ver...podem chateá-lo...
Bom, perante o recado do motorista, confiei no que ele me disse e assim fiz. Deitei-me a correr carreiro acima, que me fazia lembrar os caminhos das cabras da aldeia onde nasci, pelo meio dos canaviais e em cerca de 3 minutos cheguei às portas da escola, que tinha acesso por estrada, mas por outra zona onde nenhum autocarro passava, pois todos os alunos eram locais e não utilizavam os transportes públicos.
Estava cansado, mas contente, pois tinha chegado e ninguém se meteu comigo. Cheguei são e salvo!
- Bom dia, sou professor, fui aqui colocado e venho-me apresentar.
- Bom dia, professor, bem vindo e dirija-se à secretaria.
Depois de me explicar onde ficava a secretaria, entrei no recinto escolar e para grande admiração minha do lado direito estava um grupo de rapazes e do lado esquerdo um grupo de raparigas, todos com cara de que queriam meter-se com esta cara nova por ali.
Escusado será dizer que enquanto um grupo me assobiava e ouviam-se uns piropos, outro mandava umas bocas provocadoras.
Não liguei, para não começar mal...
Pior ainda foram os 4 meses que se seguiram. Tinha uma turma de 25 alunos todos de cor, nada de mal, não fosse o pequeno pormenor de quase nenhum saber ler fluentemente, e a maioria apresentar comportamentos indisciplinados.
Entravam e saiam pela janela, agrediam-se fisica e verbalmente a toda a hora, recusavam-se a trabalhar, não tinham materiais, etc. Houve alunos apanhados com droga, uma arma de fogo retirada por mim mesmo e dada à polícia, etc, etc.
Professoras vitimas de agressões físicas, cuspidelas e uma fechada num armário, para além da destruição da escola, dos seguranças para guardar os carros dos professores, senão desapareciam peças...
Também me levantaram a mão algumas vezes, mas sempre me defendi, não respondendo na mesma moeda, fazendo chamadas de atenção, emendas, correcções, castigos, reuniões com pais (os que apareciam, pois muitos nem os conheci), encaminhamentos para CPCJ, processos disciplinares, etc.
Não foi fácil trabalhar com este grupo, que me fez aprender e crescer muito, pois tive muitos dias em que não leccionava a matéria do programada, limitava-me a mediar conflitos entre eles, evitando brigas violentas que surgiam dentro e fora da sala de aula. Tivemos muitas aulas de debate, assembleias de turma, apenas para aprenderem a saber ser e a saber estar. Fichas de trabalho com desenhos para aprenderem a ter uma postura correcta nas aulas e na escola, aulas ao ar livre para sabermos estar em espaços diferentes dos habituais, jogos lúdicos e competitivos, com instrução diversa para saberem ganhar e perder sem qualquer conflito, sem agressões.
As colegas, na hora de almoço, diziam a chorar, que isto era um Inferno, não suportavam as turmas que tinham. E apesar de 2 professoras terem desistido e as restantes iam faltando com atestados médicos, sempre fomos dando força uns aos outros para levarmos o barco até ao fim.
Foi uma grande lição, que não aprendi no curso e uma realidade que muitos professores nunca conheceram.
A todos os que passam por este tipo de escolas, difíceis, em bairros críticos, com alunos e encarregados de educação conflituosos, tenham força e encarem essa experiência com uma forma de melhorarem a vossa capacidade de resistir a todo e qualquer tipo de escola e aluno. Estas escolas fazem-nos crescer e torna-nos melhores profissionais.
Não sejam políticos, fazendo de conta que está tudo bem, contem sempre tudo, façam queixa, e quando pensarem que ninguém vos irá ajudar, vocês próprios descobriram a saída. Saída em grande, pela porta da frente, sempre com profissionalismo.
Até breve...

terça-feira, 25 de novembro de 2008

25/11/2008

Hoje ficámos a saber que uma das três auxiliares ficou em casa com baixa médica. Restam apenas duas auxiliares para cumprir funções numa escola com quase 200 alunos.


Relativamente à turma, com alunos de 9 anos de idade, descreve-se da seguinte forma:

Aluno 1 - Muito indisciplinado. Mostra uma personalidade muito agressiva, constantemente goza, ameaça e agride os colegas. Não trabalha quase nada na sala de aula, destroi os materiais, rasga as fichas de trabalho. Quando se zanga com algum colega dá pontapés nas mesas e cadeiras e foge da sala de aula. O professor arquiva tudo para apresentar ao encarregado de educação que nunca compareceu na escola, apesar das inúmeras convocatórias feitas por escrito.


Aluno 2 - Indisciplinado. Revoltado. Sem documentos, sem encarregado de educação que se encontra no estrangeiro, vive numa casa com alguém que diz ser amigo da mãe. Passou semanas sem a refeição do pequeno-almoço, almoço e lanche. Após constatação de factos apuraram-se estas situações negligentes e constatou-se que a criança aguarda documentação para sair do país, para junto da mãe.

Imediatamente foram tomadas as devidas providências para melhorar a situação da criança e a mãe já regressou para tratar do problema. (...)


Aluno 3 - Indisciplinado. O aluno por vezes executa as tarefas escolares, outras vezes não. É muito distraído e várias vezes provoca situações em sala de aula que levam a brigas entre colegas. Também já levou participações escritas para o encarregado de educação. Algumas não foram assinadas, outras foram mas aparentemente sem consequências.


Aluno 4 - Muito trabalhador e interessado em aprender. É hiperactivo e quando se passa dá pontapés na mesas e cadeiras levando tudo à frente. Tem de ter um tratamento cauteloso.


Aluno 5 - Trabalhador. Chega tarde dos intervalos e quando algum colega o perturba também perde a cabeça, diz palavrões e também se envolve em brigas. Por vezes distrai-se conversando com os colegas.


Aluno 6 - Vai executando as tarefas propostas, mas apresenta dificuldades de aprendizagem. Distrai-se com facilidade a conversar com os colegas. É muito falador e por vezes também perturba as aulas.


Aluno 7 - Aluno pouco trabalhador e muito distraído. Gosta de cantar na sala, assobiar, conversar e construir barracas na mesa com os materiais. Também se envolve em brigas com os colegas dentro e fora da sala de aula.


Aluno 8 - Mostra algum interesse, mas tem dificuldades em executar as tarefas e em se concentrar nas mesmas. É com muita facilidade que se distrai a conversar com os colegas.


Aluno 9 - Aluno acompanhado pela CERCI, menos do que devia, por falta de recursos da instituição. É uma criança com poucas regras e normas assimiladas, que provoca os colegas gozando-os e injuriando-os. Os colegas não gostam de ouvir as suas ofensas e batem-lhe constantemente. Apesar disso ele não pára com as ofensas. Tem Apoio Educativo de Ensino Especial e é muito carente nos diversos aspectos sociais e familiares. Os pais não dão apoio escolar, a CERCI exerce essas funções bem como outras a nível de higiene e transporte para a escola.


Aluno 10 - Preguiçoso. É capaz de passar o dia sem escrever uma palavra. Não gosta de estar na sala de aula, esta muito desmotivado com tudo o que o rodeia. Vive com a avó que revela interesse em ajudar a criança. Por vezes perturba muito as aulas, incomodando os colegas. Tem sido um grande desafio fazer com que o aluno execute algumas tarefas escolares.


Aluno 11 - Revela boa capacidade de aprendizagem. É trabalhador, apesar de ser muito conversador e por vezes perturbador das aulas.


Aluno 12 - Trabalhador e empenhado, apesar de ter dificuldades na resolução das tarefas propostas.


Aluno 13 - Aluno sossegado, pouco participativo, vai fazendo as tarefas propostas apesar de revelar dificuldades de aprendizagem. Raramente se envolve em conflitos.


Aluno 14 - Exemplar. Trabalhador, participativo, revela muito interesse em aprender e sobrevive ao grupo indisciplinado, apresentado trabalhos excepcionais e comportamento adequado.


Aluno 15 - Bom aluno. Trabalhador e participativo. Por vezes distrai-se e gosta de conversar na aula.


Aluno 16 - Calmo. Apresenta vontade de aprender e não se mete em confusões.


Aluno 17 - Sossegado. Executa as tarefas. Um pouco distraído.


Aluno 18 - Difícil puxar por ele. Não trabalha nada, apresenta dificuldades de aprendizagem. Não cria conflitos mas por vezes envolve-se neles. Passa o tempo distraído, não se concentra nas tarefas escolares. Parece viver no mundo da lua. Apresenta uma magoa forte pela perda de alguém querido, situação essa que não está ultrapassada.


O grupo, talvez por imitação dos líderes (os indisciplinados), em geral, resolve os seus problemas sem conversar, assumindo em primeiro lugar a injuria e agressão, que acontece diariamente dentro e fora da sala de aula.


Apesar dos problemas do grupo, são uns miúdos fantásticos, com quem gosto de trabalhar. Tenho a noção de que a culpa, indirectamente, não é deles, mesmo quando lutam de forma animalesca ou quando os chamo à atenção, quando corrijo os seus erros ao acções incorrectas.

O ambiente degradado vivido por alguns em suas casas, poderá ser uma forte razão para estas crianças apresentarem tanta revolta, tanta magoa, pouca capacidade de concentração e de executar as tarefas propostas pelo professor.

Encaro-os como um enorme desafio que faz de mim um professor mais experiente e capaz de lidar com situações de indisciplina de uma forma mais tranquila sem perder a paciência entendendo-os, ouvindo-os e ajudando-os em tudo o que estiver ao meu alcance e sem nunca lhes perder o respeito.

Só lamento o desinteresse de alguns encarregados de educação pelo futuro dos seus filhos, pois não dialogam com o professor, mesmo chamados à escola já diversas vezes.

Também deploro a pouca vontade de algumas entidades locais em colaborar com a escola na intervenção educativa com estas crianças.

Juntos faríamos um trabalho muito mais proveitoso.


Hoje em sala de aula tivemos poucos comportamentos desviantes, em comparação com alguns dias passados, excepto as seguintes situações:

- O aluno número 1 elaborou um "quantos queres" e escreveu nas cores: "cu, pila mole, puta, cabrão, vaca, boi, cheira mal". Começou a fazer o jogo a alguns colegas e dizia alto o que lhes calhava; ria à gargalhada a gozar com os colegas. Ao perceber a situação, e já depois de várias chamadas de atenção tirei-lhe o acessório e ele não gostou. Rasgou dez páginas do livro de Estudo do Meio, deitou os seus materiais para o chão num gesto agressivo, ainda pontapeou a mesa e fugiu da sala de aula, tudo enquanto o diabo esfrega um olho. Mais tarde voltou e conversámos sobre a triste cena que fez.

A coordenadora entrou ainda na sala de aula para repreender os alunos 5, 6, 7 e 10 por terem entrado na escola durante a noite passada, pelas 19horas, sem causar estragos. A situação foi exposta aos encarregados de educação por escrito.

O aluno 10 recusou-se a trabalhar todo o dia, sem querer explicar porquê. Esta situação acontece frequentemente e tem sido uma grande dificuldade para o professor superar.

Tirando os atrasos na entrada para a sala de aula, e as inúmeras chamadas de atenção para conversarem menos e trabalharem mais, ouvindo as matérias leccionadas, não houve mais nada a anotar.

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

Primeira análise da escola

Em primeiro lugar deixo uma breve caracterização da escola e do estado em que se encontra desde o inicio do ano lectivo.





A escola de 1.º ciclo fica num bairro social e encontra-se desde o ano passado em remodelações. As obras ainda decorrem a grande ritmo mesmo com as aulas a funcionar. No entanto há tubos, fios eléctricos à vista e ao alcance de qualquer aluno.





As obras no edifício parecem concluídas restando ainda obras no pátio.





Estão a fazer-se passeios em pedra, acessíveis aos alunos, que brincam com elas tendo já sido partidas algumas cabeças e vidros.





Não há um único computador dentro das instalações escolares, apesar de haverem aulas de Informática. A escola não tem qualquer espaço adequado para as crianças brincarem, não há baloiço, simplesmente nada. Há um campo de futebol, em cimento mas sem balizas.





Não há fax, telefone, campainha na porta, materiais escolares de apoio ao ensino, materiais de desgaste como lápis de carvão, canetas, borrachas, afias, cartolinas, enfim nada, salvo o que os professores compram com o seu próprio dinheiro que dispõem do seu magro salário. A escola parece isolada em termos de comunicação excepto os telemóveis dos professores e alunos que convém usar apenas em caso de emergência.


Não há, também, papel higiénico na escola, ou qualquer produto de limpeza, sendo a limpeza feita apenas com água.








Há muitos alunos com problemas de aprendizagem e que apresentam inúmeros comportamentos indisciplinados.



Que fique bem claro que as situações descritas estão devidamente denunciadas às entidades competentes que até agora nada têm feito.


Têm sido muitos os esforços dos professores desta escola, informando através de ofícios a situação em que a escola se encontra, mas não há respostas nem apresentação de soluções, andando os docentes a "tapar buracos" a vários níveis.


Alguns encarregados de educação também já perceberam a situação degradante em que a escola se encontra, mas pouco se manifestam. Outros, desde o inicio do ano lectivo nunca compareceram na escola, apesar das convocatórias feitas.




Diário dum professor

Serve este blog para escrever o dia a dia dum professor numa escola de ensino público, situada na grande metrópole de Lisboa.
Após o inicio do ano lectivo têm sido tantas as situações anormais que surgem constantemente, que se decidiu de alguma forma comunicar a todos os interessados.
Deixa-se um apelo aos leitores para comentarem as postagens deixando-se ao critério de cada um, se entende que o que se escreve é verdadeiro e de facto acontece na escola ou se será apenas uma criação do imaginário deste professor.
Em todo o caso espera-se que estas histórias contribuam para que os agentes educativos fiquem mais preparados para lidarem com situações semelhantes.