Meados de Setembro, ainda por colocar. Ansiedade diária de ver na Internet quando sairá a próxima fornada de vagas para ser colocado. A preocupação de todos os docentes: quando, onde, como será, terei de sair de casa e deixar tudo ou poderei ir todos os dias a partir de minha casa na margem sul do Tejo, com vista para o Forum de Almada?!
Cansado das apresentações quinzenais no centro de emprego, resolvi procurar trabalho noutra área. Foi difícil, mas até Fevereiro, trabalhei numa linha de montagem, numa fábrica em Corroios e ainda atravessava a ponte para trabalhar num ATL em Odivelas. Pelo menos trabalhava e sentia-me útil, em vez de estar em casa a receber o subsídio de desemprego.
Em Fevereiro, fui colocado numa escola que considerei boa, assim como os alunos que tinha. O pior, veio em Março, quando a professora que eu fui substituir se apresentou ao serviço após um mês de baixa médica.
Foi nesta altura que tive de voltar a procurar emprego. Passados 15 dias aí vou eu, novamente para os arredores de Lisboa.
Sem carro, apresento-me no Campo Grande para apanhar o autocarro, já com uma hora de comboio e metro.
- Bom dia, este autocarro passa na escola tal..tal?
E o motorista, com ar de preocupado, diz:
- Passa sim, porquê? Não me diga que é professor e vai lá dar aulas?
- Por acaso sou. Fui lá colocado e como não sei onde fica vou de autocarro, se não se importasse dizia-me qual a paragem em que devo sair.
- É assim, aquela escola é complicada, sente-se aqui no banco da frente e depois não sai em nenhuma paragem de autocarro. Vai sair num local que eu lhe indicarei.
Eu fiquei um pouco apreensivo com aquela apresentação da escola onde eu acabava de ser colocado até final do ano lectivo.
Após uma viagem de mais de uma hora chegámos ao bairro onde a escola estava inserida. Já quase todos os passageiros tinham saído, quando o motorista me chamou e me disse:
- É assim, o autocarro não passa em frente à escola, mas eu vou deixá-lo ali na rua mais próxima para que possa chegar lá rápido.
Parou numa zona erma.
- Onde está a escola?
- Está a ver ali no cimo daquele monte?
- Sim.
- O senhor sai aqui, sobe por este carreiro, mas vai sempre a correr, se alguém o chamar ou se meter consigo, nunca pare, só pára na portaria da escola. Não tenha medo, mas aqui quando vêm alguém desconhecido, tá a ver...podem chateá-lo...
Bom, perante o recado do motorista, confiei no que ele me disse e assim fiz. Deitei-me a correr carreiro acima, que me fazia lembrar os caminhos das cabras da aldeia onde nasci, pelo meio dos canaviais e em cerca de 3 minutos cheguei às portas da escola, que tinha acesso por estrada, mas por outra zona onde nenhum autocarro passava, pois todos os alunos eram locais e não utilizavam os transportes públicos.
Estava cansado, mas contente, pois tinha chegado e ninguém se meteu comigo. Cheguei são e salvo!
- Bom dia, sou professor, fui aqui colocado e venho-me apresentar.
- Bom dia, professor, bem vindo e dirija-se à secretaria.
Depois de me explicar onde ficava a secretaria, entrei no recinto escolar e para grande admiração minha do lado direito estava um grupo de rapazes e do lado esquerdo um grupo de raparigas, todos com cara de que queriam meter-se com esta cara nova por ali.
Escusado será dizer que enquanto um grupo me assobiava e ouviam-se uns piropos, outro mandava umas bocas provocadoras.
Não liguei, para não começar mal...
Pior ainda foram os 4 meses que se seguiram. Tinha uma turma de 25 alunos todos de cor, nada de mal, não fosse o pequeno pormenor de quase nenhum saber ler fluentemente, e a maioria apresentar comportamentos indisciplinados.
Entravam e saiam pela janela, agrediam-se fisica e verbalmente a toda a hora, recusavam-se a trabalhar, não tinham materiais, etc. Houve alunos apanhados com droga, uma arma de fogo retirada por mim mesmo e dada à polícia, etc, etc.
Professoras vitimas de agressões físicas, cuspidelas e uma fechada num armário, para além da destruição da escola, dos seguranças para guardar os carros dos professores, senão desapareciam peças...
Também me levantaram a mão algumas vezes, mas sempre me defendi, não respondendo na mesma moeda, fazendo chamadas de atenção, emendas, correcções, castigos, reuniões com pais (os que apareciam, pois muitos nem os conheci), encaminhamentos para CPCJ, processos disciplinares, etc.
Não foi fácil trabalhar com este grupo, que me fez aprender e crescer muito, pois tive muitos dias em que não leccionava a matéria do programada, limitava-me a mediar conflitos entre eles, evitando brigas violentas que surgiam dentro e fora da sala de aula. Tivemos muitas aulas de debate, assembleias de turma, apenas para aprenderem a saber ser e a saber estar. Fichas de trabalho com desenhos para aprenderem a ter uma postura correcta nas aulas e na escola, aulas ao ar livre para sabermos estar em espaços diferentes dos habituais, jogos lúdicos e competitivos, com instrução diversa para saberem ganhar e perder sem qualquer conflito, sem agressões.
As colegas, na hora de almoço, diziam a chorar, que isto era um Inferno, não suportavam as turmas que tinham. E apesar de 2 professoras terem desistido e as restantes iam faltando com atestados médicos, sempre fomos dando força uns aos outros para levarmos o barco até ao fim.
Foi uma grande lição, que não aprendi no curso e uma realidade que muitos professores nunca conheceram.
A todos os que passam por este tipo de escolas, difíceis, em bairros críticos, com alunos e encarregados de educação conflituosos, tenham força e encarem essa experiência com uma forma de melhorarem a vossa capacidade de resistir a todo e qualquer tipo de escola e aluno. Estas escolas fazem-nos crescer e torna-nos melhores profissionais.
Não sejam políticos, fazendo de conta que está tudo bem, contem sempre tudo, façam queixa, e quando pensarem que ninguém vos irá ajudar, vocês próprios descobriram a saída. Saída em grande, pela porta da frente, sempre com profissionalismo.
Até breve...
quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011
Assinar:
Postar comentários (Atom)
Nenhum comentário:
Postar um comentário